Crítica XXI

Portugal é há quase meio século governado pelas esquerdas. Se estendermos a ideia de poder ao campo cultural, podemos dizer que esse domínio é até anterior à Revolução e permanece mesmo quando as direitas governam. 

Disto não resulta apenas que as direitas e o seu pensamento sejam mal conhecidos; resulta uma atmosfera cultural e mediática acomodada e maniqueísta sem espaço para a interrogação crítica. 

Crítica XXI quer dar a conhecer a tradição intelectual das direitas e os seus desenvolvimentos actuais, olhando para valores, ideias e princípios com liberdade incondicional.

NÚMERO 15 . PRIMAVERA 2026

Este número 15 da Crítica XXI, referente à Primavera de 2026, abre com um artigo de Jaime Nogueira Pinto, “Os Iliberais de há 100 anos”,  que historia a vaga de movimentos e regimes iliberais que, nos anos vinte, surgiram na Europa em resposta à crise do parlamentarismo liberal e à ameaça comunista. Nele sublinha a importância de distinguir estes autoritarismos nacionais-conservadores do fascismo italiano e do nacional-socialismo alemão.

Também numa linha de História do pensamento e dos movimentos políticos, Miguel Morgado, em “O Fascismo nasceu na Sabóia? O pensamento político de Joseph de Maistre”,  argumentando contra Isaiah Berlin, que aponta De Maistre como “fascista”, esclarece a diferença abissal entre o anti-liberalismo e anti-democratismo de  Joseph de Maistre, – um católico contra-revolucionário e tradicionalista – e o pensamento e instituições do Fascismo, ideologia e movimento que pertence à chamada “direita revolucionária”.

Tu que  fumas” é um ensaio de Carlos Maria Bobone que, a propósito do “vício” do tabaco e da sua interdição e condenações globais, faz uma reflexão sobre as sociedades contemporâneas e a determinação ético-legal, dos seus interditos e das suas liberdades.

Em “Preste João das Índias — Entre a profecia e a geopolítica“, José Cortez de Lobão ocupa-se da resenha histórica e literária de um velho mito cristão europeu – o Preste João – muito familiar às narrativas da expansão portuguesa. Vinda das profundas da Idade Média, a narrativa sobre um Reino de um Rei cristão no Oriente, que resistira às forças do Islão e queria aliar-se com a Europa cristã contra os muçulmanos, é muito comum na história da Expansão Portuguesa. Nos tempos de D. João II e D. Manuel I, os extraordinários viajantes e nossos compatriotas, Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã, para lá viajaram. E Covilhã lá ficou e morreu na corte da Etiópia.

Em “Churchill e os Socialismos”, Nuno Sanches de Baena Ennes aborda a figura de Winston Churchill na perspectiva dos seus anos de formação política e no papel que o confronto com “os socialismos” acabou por ter na formação dos seus valores de conservadorismo liberal. Foi na Índia, no seu serviço militar como jovem oficial, que Churchill se entusiasmou e dedicou à leitura e à cultura, desde a Origem das Espécies de Darwin que o familiarizou e entusiasmou pelo “darwinismo social”, até ao clássico inglês de Gibbon da História de Roma e da Decadência do Império Romano. Depois veio a paixão pela História de Inglaterra e a descoberta da harmonia do “mistério britânico”, a harmonia entre Tradição e Modernidade.

No centenário do 28 de Maio, evocando a revolução militar de há um século (piedosa e intencionalmente esquecida no presente), Rui Ramos parte em “ A Revolução do 28 de Maio de 1926 e as origens do Salazarismo” para uma análise do papel dos militares na origem e vigência do Estado Novo. E conclui que o sucesso da revolução de Maio esteve, paradoxalmente, no papel central dos militares na formação e no apoio ao Estado Novo e em se terem afastado do exercício directo do poder. Mas também em se terem mantido como os garantes – unidos e na sombra. E quando deixaram de o apoiar, o regime caiu.

Na habitual secção final de “Notas Críticas”, Eurico de Barros e Jaime Nogueira Pinto fazem a crítica de dois filmes políticos recentes: Projecto Global de Ivo M. Ferreira, sobre o terrorismo das FP-25 de Abril, e Lavagante, de Mário Barroso. O primeiro é uma obra política e moralmente ambígua sobre um grupo terrorista de extrema-esquerda, que existiu, contra a ideia de que só há terroristas na extrema-direita. Lavagante é uma história mais composta sobre o Estado Novo, com Pides “ feios, porcos e maus” e oposicionistas esclarecidos e bondosos.

Miguel Freitas da Costa faz uma recensão crítica ao livro de José Luís Andrade, Breve História do 28 de Maio e da Ditadura Militar, uma obra de síntese, muito interessante e  importante no centenário do movimento militar.

A finalizar, mais uma recensão  de Eurico de Barros, Fanfulla, de Hugo Pratt e Mino Milani) e outra de Miguel Freitas da Costa, Um Português na China, de André Macedo.

DIRECÇÃO JAIME NOGUEIRA PINTO E RUI RAMOS